12 meses, 12 livros: fevereiro
Gente feliz com lágrimas, João de Melo
A obra Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo, retrata a realidade da emigração, sobretudo a vivida por muitos açorianos que partiram em busca de melhores condições de vida. Apesar da esperança num futuro mais próspero, a emigração surge marcada pela dor da separação, pela saudade da terra natal e pela dificuldade em manter a própria identidade. O título do livro evidencia essa contradição: uma felicidade aparente que esconde sofrimento e lágrimas.
As duas peças representadas por rádios vindos dos Estados Unidos estabelecem uma relação simbólica com a obra literária. O rádio assume-se como um meio de ligação entre o emigrante e o seu país de origem. Através dele, era possível ouvir a língua portuguesa, notícias e músicas que evocavam memórias da terra deixada para trás, funcionando como um conforto emocional num contexto de distância e solidão.
O facto de os rádios terem origem nos Estados Unidos reforça ainda mais o tema central da obra. Estes objetos simbolizam o sonho americano e a ideia de progresso, mas também o isolamento e a saudade sentidos por quem emigra. Tal como as personagens do livro, os rádios carregam histórias de adaptação, sacrifício e resistência num país estrangeiro.
Desta forma, tanto Gente Feliz com Lágrimas como as peças dos rádios dialogam entre si ao deflectirem a experiência da emigração como um processo complexo, marcado simultaneamente pela esperança e pela dor. Ambos revelam que, por detrás da procura da felicidade, existem perdas emocionais profundas e um constante sentimento de nostalgia.