No início do mês de janeiro, foi instalada, na Secretaria da Educação, Cultura e Desporto, situada no Palácio Bettencourt, a pintura a óleo sobre tela, Os Emigrantes, da autoria de Domingos Rebelo, numa versão assinada e datada de 1929, após a conclusão de uma intervenção mínima de conservação curativa. A colocação da obra foi realizada pelos técnicos do Centro de Património Móvel, Imaterial e Arqueológico, da Direção Regional da Cultura, no âmbito das competências de salvaguarda, valorização e acompanhamento técnico do património artístico móvel da Região.
A intervenção incidiu sobre uma obra que apresenta especificidades técnicas relevantes, uma vez que a pintura se encontra colada a uma estrutura de madeira, proveniente do seu contexto original, circunstância que condicionou as opções metodológicas adotadas. Atendendo à natureza do suporte e aos meios disponíveis, optou-se por uma abordagem de conservação mínima, orientada para a estabilização da obra e para a garantia da sua consistência estrutural e integridade material, evitando procedimentos mais invasivos.
Paralelamente, a moldura original em mogno foi igualmente objeto de tratamento de conservação, tendo sido realizada uma lixagem fina, destinada à remoção de sujidades e manchas acumuladas ao longo do tempo, seguida da aplicação de uma camada de proteção com cera de abelha, contribuindo para a sua preservação e valorização estética.
Esta versão de grande formato do tema Os Emigrantes, com dimensões de 155 por 212 centímetros, data de 1929, distinguindo-se da versão anterior, de 1926, atualmente integrada na coleção do Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada. Para além destas duas versões de referência, Domingos Rebelo produziu ainda outras interpretações do mesmo tema, em formatos de menores dimensões, resultantes de encomendas privadas, encontrando-se hoje dispersas por diferentes territórios.
A pintura agora instalada é proveniente do antigo Bureau de Turismo Terra Nostra, em Ponta Delgada, espaço onde se encontrava colada diretamente sobre uma estrutura de madeira, que constituía uma parede interna ligeiramente encurvada. No entanto, não é possível afirmar com segurança que a obra tenha sido originalmente encomendada para esse local, uma vez que a Sociedade Terra Nostra apenas foi fundada em 1934, sendo a pintura anterior, com data de 1929.
Após a sua aquisição pelo Governo Regional, nos anos 80 do século XX, a obra foi alvo de uma intervenção de conservação e restauro, realizada pelo então Centro de Estudo Conservação e Restauro de Obras de Arte, anexo ao Museu de Angra do Heroísmo. Posteriormente, esteve exposta no salão nobre dos antigos Paços da Junta Geral do Distrito Autónomo dos Açores, localizados na Rua Carreira dos Cavalos, em Angra do Heroísmo, onde permaneceu durante vários anos.
A recente conservação curativa incluiu uma limpeza química suave da superfície cromática, precedida da realização de testes adequados, permitindo a remoção de poeiras e fuligens superficiais e aderentes. Procedeu-se igualmente à fixação dos estratos de preparação e da camada pictórica, em pequenas áreas lacunares e nas zonas envolventes em risco de destacamento, bem como ao longo de fissuras verticais, resultantes dos movimentos de contração e expansão da madeira. Foram ainda preenchidas pequenas lacunas, seguidas de integração cromática, com recurso a aguarela. Optou-se por não realizar o aligeiramento dos vernizes, atendendo à existência de numerosos retoques e repintes, alguns dos quais poderão ser da própria mão do artista.
Todo o processo de intervenção e a gestão dos procedimentos técnicos estiveram sob a responsabilidade da técnica superior de conservação e restauro Eugénia Silva, contando com a colaboração do técnico de carpintaria e marcenaria Paulo Silveira e do assistente técnico Paulo Dutra, num trabalho articulado, que permitiu assegurar a preservação desta obra emblemática do património artístico açoriano.