1 Etimologia: açoriano + -ismo.
Definição: Palavra ou expressão usados apenas no português falado nos Açores ou que, embora façam parte da linguagem padrão, aqui têm um significado particular.
Há açorianismos limitados a uma ou grupo de ilhas como, por exemplo, o termo genuinamente micaelense peluei, interjeição de espanto, usada diariamente nessa ilha, corruptela de «apelo eu», assim como o termo sascar, que significa entalar, e seus derivados, sascado, sascadela, ouvidos diariamente no falar corrente das ilhas do Grupo Ocidental. Outros são de uso generalizado, como, por exemplo, gaitada, termo que só raramente se emprega com o sentido universal de toque de gaita, significando, na linguagem corrente de todas as ilhas, gargalhada ou gargalhada estridente.
Na prática, consideram-se açorianismos:
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Vocábulos não registados nos dicionários portugueses e glossários regionais do resto do país:
Vocábulos de base portuguesa: arrefiar (piscar o olho), barbadura (primeira barba do milho), despensal (saco do farnel), eiraço (halo à volta da Lua), fechadela (jacto de leite saído do teto da vaca), garbulhada (mar picado), incheichado (gordo e corado), jalação (clarão do relâmpago sem trovão), lanheiro (pasmado, desmazelado), macistar (aborrecer), nabejar (praguejar), ovelhado (diz-se do mar picado), pachocar (criar desavenças), queiro (pequena planta, também chamada rapa), raivaço (cólera), sascar (entalar), tamangalhão (indivíduo grande), ubei (exclamação de espanto), viceira (vício), xaboca (operário sarrafaçal), zangalhar (ceder, mover-se).
Vocábulos provenientes de outras línguas, não atestados nos dicionários referidos: alibar (carro de mão < wheel barrow), bècasso (retrete < back-house), caliveira ou calaveira (arado escarificador ?< cultivator), draivar (conduzir um automóvel < to drive), esprim ou esporim (mola < spring), friza (arca congeladora < freezer), gàdeme (caramba < god-damn), injarroba (borracha < indian rubber), Jou (José < Joe), loca (cadeado < lock), mechim (qualquer máquina < machine), naitegão (camisa de dormir < night gown), oeramelã (melancia < water-melon), pana (alguidar < pan), queique (bolo < cake), reque (ancinho < rake), selipa (chinela < slipper), taia (pneu < tire), talaveja (televisão < television) utrero (touro de lide de 3 anos < utrero), vaqueichas (férias < vacations), xelêpa (chinela, slipper).
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Vocábulos que, registados nos dicionários, apresentam nos Açores uma ou mais acepções diferentes: aboiar (arremessar), barbudo (nevoeiro denso), cabrão (homem que trai a esposa), discreto (inteligente), empandeirar (estragar, destruir), ferrado (mecónio), galante (bizarro, esquisito), inço (inhame pequeno), junco (caruma verde do pinheiro), lagariça (alarido, algazarra), mainel (banco de pedra no exterior da casa), nabiça (vendilhão ambulante de peixe), oficiar (executar uma tarefa), papujar (pronunciar mal as palavras), quartel (divisória onde está a vinha), ramalho (nuvem comprida e fina), sevar (sujar), talassa (pessoa estúpida), usar das galinhas (dar de comer às galinhas), vago (vertigem), xaveco (barco muito velho, sem condições de navegabilidade), zoada (marulho das ondas).
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Vocábulos atestados em dicionários portugueses, classificados como açorianismos ou como exclusivos de alguma das ilhas dos Açores: alpardo, (lusco-fusco), bonideco (de boa vontade), cabidar (repreender), dolório (desgosto), escaparate (mesa-de-cabeceira), falsa (sótão), gaitada (gargalhada), imburguês (troca-tintas), jeque (pequeno barco de pesca), lambião (labareda), nuvens-castelas (nuvens acumuladas, cúmulos), outonar (preparar as terras, estrumando-as com verduras), palanca (barrote, tranca), queimado (milhafre), rautilha (casa velha), sovadeira (saca de tecido grosseiro), tetim (variedade de barro), urzelina (terreno com muita urzela), varela (volúvel), zangarilhão (figura cómica das comédias populares).
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Vocábulos referenciados nos dicionários como arcaísmos ou termos em desuso: alcançado (envergonhado, ofendido), barrer (varrer), compeçar (começar), doairo (donaire, graça), esprito (espírito), frieldade (frieza), jenela (janela), hétego (fraco, tísico), lavrança (lavoura), mofino (avarento, sovina), peitogueira (bronquite aguda), rilheiro (remoinho de água), sage (prudente), tenor (grande vaso de barro), ua (uma), véspora (véspera).
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Palavras foneticamente alteradas, que se acabaram por lexicalizar: arça (alça, laçada numa corda), briador (vereador, ajudante do imperador das festas do Espírito Santo), caçoilha (caçoila, caçarola), desfolar (esfolar, retirar a pele), farrispa (farripa, tirinha de madeira), grandessíssimo (grandíssimo), humidoso (húmido), intarsiar (tauxiar, embutir), lavadia (levadia, onda gigantesca), manganão (maganão, mariola), palhito (palito, fósforo, pauzinho para limpar os dentes), reixa (rixa, briga), salameque (salamaleque, cortesia exagerada), tapa (tampa), velida (belida, mancha na córnea), xereno (sereno, ar húmido da madrugada).
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Vocábulos ou expressões não correspondentes a nenhuma das especificações atrás referidas, obtidos por recolha própria ou em pesquisa bibliográfica em obras contendo léxico dos Açores: alpardinho e alpardusco (lusco-fusco), badouco (acanhado, receoso), caltraçada (confusão, mixórdia), desatimado (desarrumado, desordenado), emarouviado (abatido, murcho), falquejar (desbastar uma peça de madeira com uma navalha), gadanhoto (grumo na massa de fazer o pão), heresia (ofensa, provocação), intica (intriga, mexericada), jaziga (quietação das ondas do mar, jazida), lapareiro (astuto, manhoso), laparoso (reles, repugnante), malacafento (adoentado), novelão (flor da hortênsia), ovelhas (branco rebentar das ondas no mar alto devido ao vento), pão-da-Vitória (pão ázimo, bento), quartos (nádegas), repeludo (arisco, espantadiço), sanzinha (diz-se da rapariga virgem), surrão (mulher depravada), talente (atrasado na maturação, falando dos frutos), uga (voz do pastor para a vaca mostrar o úbere), varejão (cana de pesca dos tunídeos), zimbreiro (cedro-do-mato, Juniperus brevifolia). J. M. Soares de Barcelos (2007)
2 Na sequência do movimento desencadeado nos Açores em torno da «fraternidade insular» ou «confraternização açoriana», no início do século xx, as elites do arquipélago procuraram criar o «espírito açoriano», a «alma açoriana», com o objectivo de congregar os cidadãos para a defesa de interesses comuns, nomeadamente a ampliação dos poderes da autonomia administrativa. Neste contexto, estruturou-se o conceito de açorianismo como um ideário de cariz político-ideológico que pugnava pela afirmação da identidade açoriana e pelo reforço da consciência das populações com vista a defender os interesses do arquipélago face ao poder central. Os chamados interesses regionais têm que ser compreendidos nas diferentes conjunturas pois foram utilizados para a luta política entre forças adversas. Por isso, no campo político, o açorianismo nos últimos anos da I República foi um instrumento usado pelos republicanos mais conservadores e pelos monárquicos para combaterem a força do Partido Democrático e até o próprio regime republicano. No campo cultural, o açorianismo foi influenciado pela corrente saudosista liderada por Teixeira de Pascoaes que, desde 1912, procurava ressuscitar a Pátria portuguesa e, também, por algumas ideias do Integralismo Lusitano. Nesta perspectiva, desenvolveu-se a corrente defensora do regresso à tradição, combateu-se a descaracterização da sociedade açoriana e procurou-se «açorianizar» os Açores. A dinâmica deste movimento muito amplo, com contributos diversificados, logicamente influenciou Nemésio que foi feliz na descoberta do vocábulo *açorianidade. Luís da Silva Ribeiro foi um dos autores que mais contribuiu para a definição das linhas gerais do açorianismo nos anos 20 e as suas reflexões foram fundamentais para desenvolver o seu estudo sobre a açorianidade na década seguinte. A noção de açorianidade, apresentada por Luís Ribeiro, era um aprofundamento do conceito de açorianismo, na medida em que apontava as possíveis causas da diferença entre açorianos e continentais e enunciava os factores de identidade que permitiram aos sectores mais empenhados na luta política reforçar e justificar as suas reivindicações face a Lisboa. Todavia, após a implantação do Estado Novo o confronto político entre a região e o poder central foi desaparecendo gradualmente. Neste novo contexto político, esboroou-se a principal componente do açorianismo que lhe tinha dado ânimo no período republicano. Sem acção política reivindicativa, o próprio vocábulo foi caindo em desuso, mas surgiram várias propostas para integrar a essência do açorianismo no novo conceito de açorianidade. Manuel Ferreira (Correio dos Açores, 9.8.1942), por exemplo, defendeu que a açorianidade devia ser uma «palavra-programa, orientando e dirigindo a vida e as actividades do arquipélago». E esse programa incluía o tipo de regime administrativo das ilhas. Ou seja, a açorianidade passou a integrar as duas componentes, a política e a cultural, do açorianismo dos anos 20. Durante o Estado Novo, a primeira componente pairou adormecida, mas voltou a ressuscitar, em pleno, com o 25 de Abril. As reivindicações que antes eram feitas com a bandeira do açorianismo passaram a sê-lo em nome da açorianidade. Esta tem sido interpretada como uma maneira própria de ser, estar e sentir dos açorianos que, por estas e outras razões, desejam um regime político-administrativo diferente do resto do país. Nesta nova conjuntura política, apesar da pluralidade de interpretações do conceito, a açorianidade não é mais do que a face cultural de uma moeda cujo reverso tem sido a reivindicação política. Carlos Enes (2007)
Bibl. Enes, C. (1996), A construção da unidade e identidade regional In Ribeiro, L. S., Obras, vol. IV: Escritos político-administrativos. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira / Secretaria Regional de Educação e Cultura.